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Parceria da Epagri com família de Massaranduba impulsiona pesquisa em aquicultura e agroindústria familiar
Após 10 anos de parceria, a pesquisa comemora um aumento na produtividade de 25%, e a família, uma produção recorde de 120 toneladas
05/02/2026 | Assessoria de comunicação - Epagri
Reprodução - Epagri
Quando o pesquisador do Campo Experimental de Piscicultura de Itajaí (Cepit/Epagri), Bruno Corrêa da Silva, e a extensionista Tatiane Silva perguntaram aos produtores da Associação de Piscicultores de Massaranduba (Apisma), em 2015, quem estaria disposto a abrir a porteira para um estudo científico em melhoramento genético de tilápia, Marcelo Luchetta não teve dúvida. Fazia cinco anos que ele tinha substituído os campos de futebol por lagoas de cultivo, apostando na atividade. Após 10 anos de parceria, a pesquisa comemora um aumento na produtividade de 25%, e Marcelo, uma produção recorde de 120 toneladas.
“Nós sempre tivemos lagoas de carpa para torneios de pesca, mas naquele tempo, só era possível criar um peixe por metro quadrado. Graças às pesquisas da Epagri, hoje podemos cultivar sete tilápias por metro quadrado, o que tornou a piscicultura bem mais rentável”, justifica.
Hoje, ele cultiva tilápias de diferentes tamanhos em 12 lagoas para atender cerca de 40 fazendas de pesque-e-pague, de Canoinhas a Santo Amaro da Imperatriz. A decisão de fazer a entrega do pescado foi motivada por um grande prejuízo ocorrido em 2019, quando um incêndio na caixa de energia levou à morte 32 toneladas de peixe. Marcelo vendeu um carro, adquiriu um caminhão e teve acesso aos recursos do programa Mais Alimentos para a compra de caixas térmicas utilizadas no transporte de peixe.
“Eu acabei percebendo que levando o produto direto para os clientes eu consigo um preço melhor porque tira a parte do atravessador. Além disso, posso vender peixes de tamanhos variados, enquanto a indústria só aceita tilápias de um quilo”, explica o produtor.
Rendimento de filé alcança 36%
O experimento na propriedade da família Luchetta é realizado em um viveiro de mil m², onde foram colocados sete mil alevinos produzidos no Cepit/Epagri. O pescado é acompanhado a cada 15 dias por técnicos e, mensalmente, por pesquisadores para avaliar o desempenho zootécnico, ou seja, fazer a biometria, avaliar o crescimento e a quantidade de ração necessária para produzir um quilo de peixe.
O trabalho minucioso e constante resultou, ao longo dos anos, no aumento gradativo de carne por unidade de pescado (32%) e na garantia de uma rentabilidade média de 21,76% para o produtor. “Quando começamos a fazer a pesquisa em Massaranduba, estávamos na segunda geração da tilápia, hoje estamos na quarta, e até o final do ano, devemos lançar a quinta. E o peixe se adaptou tão bem na propriedade que, na última safra, o rendimento de filé chegou a 36%”, revela Bruno.
Este aumento de desempenho fez com que, apesar do número de produtores no estado ter apresentado uma leve queda, de 32,2 mil produtores (2016) para 30,4 mil (2025), a produção anual subiu de 43,4 mil toneladas para 50 mil toneladas, segundo dados do Observatório Agro. Outra conquista da pesquisa de melhoramento genético foi o aumento da tolerância do peixe ao frio, que aguenta bem o inverno catarinense.
Piscicultores recebem kits de despesca
Para melhorar a qualidade de vida e a rentabilidade do produtor, o Governo do Estado lançou, em dezembro, o Programa de Fortalecimento Aquícola e Pesqueiro, que será desenvolvido pela Epagri em parceria com a Secretaria Executiva da Aquicultura e Pesca (SAQ). Na ocasião, foram entregues 14 Kits de despesca.
Um dos kits foi entregue à Apisma na propriedade de Marcelo, em 17 de dezembro. Cada kit é composto por uma esteira a diesel, redes de arrasto, caixas plásticas e balanças digitais, visando diminuir custos operacionais e com a mão de obra, facilitando o escoamento do pescado e a sustentabilidade da atividade.
Na oportunidade, o pesquisador Bruno apresentou dados sobre a safra 2024/25 a produtores e técnicos, mostrando a recuperação de preço médio da tilápia após a queda registrada em 2023. A veterinária e pesquisadora do Cepit, Lúvia Souza de Sá, fez uma apresentação sobre sanidade animal.
SC é o quarto maior produtor de tilápia do Brasil. O litoral norte e a região de Laguna são os maiores produtores. As fazendas de cultivo de tilápia catarinenses têm, em média, de 1,5 a 2 hectares de água alagada, com produção anual entre 60 e 80 toneladas anuais cada. “Estamos na terceira geração de piscicultores que estão se beneficiando do trabalho de melhoramento genético desenvolvido na Epagri. E já começamos os estudos iniciais para o desenvolvimento da sexta geração de tilápia, coordenada pela zootecnista Alexandra dos Santos, que veio a integrar a equipe do Cepit/Epagri em 2025”, revela o pesquisador.
Sérgio resgata sonho do pai em fabricar a própria cachaça
A propriedade da família Luchetta ganhou mais um atrativo em 2019, quando o irmão mais novo de Marcelo, Sergio, 50, se desligou definitivamente do banco em que trabalhava para empreender nas terras da família. A primeira ideia foi ajudar no negócio do irmão, implantando uma unidade de beneficiamento do pescado. Mas, depois de fazer uma análise de mercado, percebeu que não seria uma boa ideia, então lembrou do desejo do pai, produtor de cana-de-açúcar, de fabricar a própria cachaça.
“Na época de colheita da cana, eles eram obrigados a cortar toda a plantação, e para não perder produto, faziam melado. Ainda hoje é tradição na região fazer a aguardente a partir do melado, e eu segui pelo mesmo caminho”, conta. Sérgio explica que o destilado feito a partir do melado se chama aguardente e pode chegar a 54⁰, enquanto a cachaça é feita com cana fresca e tem um teor alcoólico mais baixo (48⁰).
Para construir o alambique de 210m², Sergio usou recursos próprios e contou com a orientação da extensionista Cíntia Veiga, e com o expertise do engenheiro de alimentos Henrique Rett, do Centro de Treinamento de Joinville (Cetreville), para fazer o projeto e se adequar à legislação sanitária. Henrique também lhe forneceu receitas de licores, que foram aperfeiçoadas com o tempo. Para aprender a fazer cachaça, aguardente e licores, Sérgio fez curso no Centro de Treinamento da Epagri em São Miguel D’Oeste (Cetresmo).
No primeiro ano de produção, Sérgio fabricou dois mil litros de cachaça branca. Em 2025, a produção saltou para 12 mil litros. A variedade de sabores impressiona. Além da cachaça branca e envelhecida em barris de carvalho e jequitibá, ele fabrica 11 tipos de licores. Entre os sabores, estão os tradicionais maracujá, jabuticaba, banana, canelinha, butiá e gengibre, e novas tendências de mercado, como doce de leite, pistache, limoncello, chocolate com avelã e jambu, este último ainda em testes.
Irmãos Luchetta querem transformar a propriedade em atração turística
Para equipar e modernizar o alambique, em 2022, o empreendedor contou com o apoio da extensionista Maria Luiza Tomazi Pereira, que fez todo o processo para ele ter acesso a R$50 mil através do Financia AGRO SC (Financiamento para Empreendimentos de Agregação de Valor e Turismo Rural).
Para 2026, Sérgio pretende dar um passo além, ampliando a área do alambique em mais 100m² para acomodar melhor os barris e criar um receptivo para os clientes, já que sua estratégia de venda é direta ao consumidor. Desta vez, Sérgio teve o auxílio da extensionista Lilian Gonçalves para financiar a obra no valor de R$ 43 mil.
“Como Marcelo tem planos de construir chalés para ingressar no setor de turismo rural, o alambique acaba sendo um outro atrativo, além das lagoas e das trilhas que temos na propriedade”, revela. A venda de cachaças, aguardentes e licores é realizada no alambique e nas redes sociais através do perfil no Instagram @alambiqueluchetta.
Os irmãos contam que o sítio foi herança do avô, José Luchetta, e sempre teve como característica a diversificação de produtos rurais. No início, era agricultura de subsistência, onde se plantava de tudo um pouco. Quando chegou a vez do pai José Armando assumir a propriedade, ele mudou a plantação para fumo, criação de aves e cultivo de palmeira real. A piscicultura só se tornaria protagonista da propriedade a partir dos anos 2000, graças às tecnologias criadas pelos profissionais da Epagri e seu trabalho de extensão rural.




