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Pescadoras artesanais do Litoral Norte começam jornada de aprendizado e transformação social na Epagri
De manhã as participantes foram desafiadas a encontrar soluções para dificuldades em comum
06/04/2026 | Assessoria de comunicação - Epagri
Reprodução - Epagri
Fortalecer e modernizar a atividade pesqueira artesanal e valorizar o papel da mulher num meio majoritariamente masculino é o grande desafio do projeto Flor-e-Ser Mulheres Pescadoras, que todos os anos capacita trabalhadoras para empreender, formalizar seu negócio e agregar valor aos seus produtos. Em Itajaí, a jornada começou no Centro de Treinamento da Eagri (Cetrei) em 24 de março, com palestras sobre associativismo e bons exemplos de protagonismo feminino nos municípios de Bombinhas e Balneário Piçarras.
De manhã, o extensionista da Epagri do município de Itapoá, Antonio Carlos Pereira, fez um panorama sobre a pesca no Estado, destacando os maiores desafios, como a diminuição dos estoques de peixes e a falta de valorização da atividade. Ele também trouxe bons exemplos de associativismo que unem profissionais do mesmo ramo e como essa união valoriza os produtos e abre novos mercados. Aí foi a vez das participantes trabalharem em grupo e descobriram o quanto têm em comum.
“Somos muito parecidas, principalmente nas dificuldades. Eu não tinha contato com outras pescadoras, então o curso está sendo muito bom pra mim. Essa troca de experiência ajuda bastante, a gente aprende muito uma com a outra”, declarou Jéssica Prestes Batista, 29 anos, moradora de Penha.
Há cinco anos, ela e o marido passaram a viver da pesca e do beneficiamento de peixe, após a filha nascer com um problema genético. “A gente tinha um trailer de lanches, mas vendemos porque eu precisava ficar mais tempo com ela. Meu marido e sogro pescam e filetam o peixe. Eu faço o empanamento, embalo, congelo e saio pra vender”, revela.

Josiane Onélia de Nascimento, 51, é de Navegantes e também beneficia o peixe trazido do mar pelo marido. Mas, ao contrário de Jéssica, ela começou na atividade ainda criança, levada pela mãe para trabalhar nas salgas de fundo de quintal descascando camarão. Em épocas quando o dinheiro ficava escasso, como durante o defeso, trabalhou como diarista, além de manipular peixe de madrugada, transformando-o em iguarias com clientela certa. Daí nasceu a ideia de abrir uma peixaria.
“Meu filho ajudava nas vendas e conseguiu um espaço para montar a peixaria, que hoje eu toco em sociedade com um cunhado. Graças a Deus, agora a gente pode manipular o pescado com segurança. Eu preparo, embalo, a gente vende peixe e camarão empanados, fizemos sopa de frutos do mar, caldo de peixe, paella, bolinho”, enumera. A expectativa de Josiane com o curso é conseguir um financiamento para melhorar o seu negócio, já que a embarcação sempre precisa de melhorias, ou comprar um novo freezer.
“Eu me realizo naquilo que eu faço, eu gosto de atender às pessoas, oferecer meu produto, saber que é de qualidade, gosto de ver as pessoas voltando porque sabem que é de boa procedência. Eu só estudei até a sexta série e não tive a oportunidade de voltar a estudar, aí quando aparece um curso assim, pra gente é uma alegria”, afirma.

O que para Josiane já é uma realidade – ter uma peixaria – ainda é um sonho para a pescadora Gisleide Godoi Viera, 54, de Balneário Camboriú. Ela é a quarta geração de pescadoras da família e uma das únicas profissionais que atuam nos ranchos de pesca artesanal na Praia Central. Seu maior sonho é conseguir um espaço só para mulheres, onde elas pudessem oferecer pratos para os turistas com o fruto do seu trabalho.
“Poderia ser um contêiner, onde a gente pudesse manipular e vender esse peixe sem sair da praia. O nosso maior problema é transportar este peixe, muitas vezes não temos este espaço em casa nem freezer adequado. Um quiosque que representasse o rancho de pesca das mulheres em plena Praia Central seria maravilhoso”, acredita.
Histórias inspiradoras motivam as participantes a pensar coletivamente
À tarde foi a vez das participantes se inspirarem em histórias de mulheres que estão revolucionando a atividade pesqueira e turística em seus municípios. Primeiro, Silvana Leone, de Bombinhas, contou sua saga, desde que era marisqueira até criar, em 2018, a Escola do Mar e, em 2023, a Associação de Mulheres do Mar. “A primeira associação, formada lá atrás, com 30 pescadoras, acabou não dando certo porque é preciso ter pessoas comprometidas que saibam pensar na coletividade”, afirma.

Silvana também empreendeu no setor turístico, recebendo visitantes em sua casa, onde cozinha deliciosos pratos à base de frutos do mar e oferece produtos artesanais feitos com materiais rústicos pelo projeto “É de nós”. Ela também guia os turistas em passeios de barco, mostrando as belezas da Costa Esmeralda e as histórias da comunidade pesqueira. Seu trabalho pioneiro foi reconhecido pelo governo federal, que a convidou para participar da elaboração de um plano de Pesca Artesanal do Brasil para os próximos 10 anos.
Uma das participantes do curso da Epagri, Graziela Domingues da Silveira, 39, é de Bombinhas e foi aluna de Silvana. Ela e o marido têm uma empresa de passeios turísticos, criada para incrementar a renda em época de defeso, já que ele é pescador. Mas o que era renda extra virou a principal atividade do casal, que hoje oferece passeios de barco duas vezes ao dia, o ano todo, além de levar os turistas para fazer pesca noturna. A intenção de Graziela é separar as atividades, ou seja, ter um barco só para pesca e outro para os passeios, que também tem um caráter educativo.
“Os nossos passeios não são apenas visando a parte financeira, a gente conta a história de Bombinhas, nossa história com o mar, o respeito com o mar e a mata. Dentre os passeios tem o de Zimbros que é maravilhoso, um roteiro lindo e muito preservado. A gente faz trilha guiada, mostra as aves, passa pelas marisqueiras, faz um snorkel guiado para os turistas terem uma noção de como é rica a nossa fauna e como é linda a biodiversidade, com muitas tartarugas e peixes diversos”, relata.
A terceira palestrante do dia foi Temisse Ariane dos Santos Winter, 47 anos, natural do Guarujá (SP) e moradora de Balneário Piçarras, onde trabalha na pesca em parceria com o marido e a filha. Temisse relatou suas experiências num meio que não via com bons olhos a presença de mulheres. Ela também contou como foi o processo de regularização e aprimoramento da empresa familiar, a busca por capacitação e por seus direitos como pescadora profissional. E como a comunidade se uniu para melhorar a infraestrutura da atividade, com a construção de uma fábrica de gelo através de emenda parlamentar.
Nesta edição, participam 26 mulheres dos municípios de São Francisco, Navegantes, Porto Belo, Penha, Balneário Camboriú, Camboriú, Itajaí e Bombinhas. Ao todo serão seis encontros, em que as participantes recebem capacitação técnica e realizam atividades em grupo, trocando experiências e ampliando a rede de contatos, fortalecendo o sentimento de união e sororidade. Na pedagogia da alternância, utilizada pela extensão rural e social da Epagri, as participantes alternam períodos de aprendizado com retorno ao lar, onde podem colocar os conhecimentos em prática. O próximo encontro acontece em 7 de abril.
Por Renata Rosa, jornalista bolsista da Epagri/Fapesc




