Associação Brasileira das Entidades Estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural

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  • 08
  • OUT
  • 2013

IPA apostará em tecnologias para enfrentar a seca

Júlio Zoé de Brito: “O grande desafio do IPA será discutir um conjunto de inovações tecnológicas de convivência com o semiárido. Essa é uma questão que tem que ser perseguida, pois não podemos ter secas, um fenômeno natural, com tantas perdas financeiras”
Em 2013, quando os serviços de assistência técnica e extensão rural completam 65 anos, o Instituto Agronômico de Pernambuco comemora 78 anos de fundação. Há 7 anos na presidência do IPA e 2 à frente da Associação Brasileira das Entidades Estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural (Asbraer), Júlio Zoé de Brito comemora trajetória de sucesso do IPA, que atua no pesquisa e no atendimento às demandas dos agricultores pernambucanos.
Para Júlio Zoé, a responsabilidade de comandar o IPA, que desenvolve em Pernambuco um conjunto de tecnologias que, aliada à extensão rural, leva conhecimento aos agricultores familiares, é motivo de muito orgulho. De acordo com ele, as festividades provocam uma reflexão sobre o que foi desenvolvido pelo IPA e estimulam um olhar para o futuro. Em relação aos desafios e projetos para o próximo ano, ele destacou a necessidade de desenvolvimento de métodos de convivência com seca para reduzir os prejuízos dos homens e mulheres do campo.
A seguir os principais trechos da entrevista do presidente da Asbraer e do IPA:

O que significa essa data para o cenário agropecuário de Pernambuco?
É uma oportunidade de abrirmos as portas da nossa entidade para a sociedade a fim de divulgar, principalmente, as grandes contribuições oferecidas pelo IPA durante décadas. Então, é muito bom construir e celebrar esse aniversário, quando temos a oportunidade de refletir sobre o que já foi feito pela instituição, o que está fazendo e, acima de tudo, olhar para o futuro. É pensar nessa instituição daqui a 10, 20, 30 anos.
Como é comandar um instituto da dimensão do IPA?
Considero um orgulho para qualquer profissional ter a atribuição e a responsabilidade de comandar uma instituição com o IPA, que, em 78 anos, trouxe para a sociedade de Pernambuco um conjunto de tecnologias e, com a chegada da extensão rural, fez com que esse conhecimento chegue aos agricultores familiares.
Como o senhor avalia a importância do IPA, uma entidade que abriga pesquisa e extensão rural, para o estado e para a região Nordeste, que desafia os especialistas, principalmente devido às longas estiagens?
É uma grande oportunidade de a pesquisa e a extensão rural estarem juntas no estado, porque no momento em que vamos planejar o que fazer de pesquisa, não fazemos por intuição de pesquisador. Buscamos, na capilaridade da extensão rural, os grandes problemas que os agricultores estão enfrentando. Então, o nosso planejamento de trabalho é realizado a partir de um plano anual, que chamamos de PAM (Plano de Ação Municipal). Em cada município, a partir de reuniões com as comunidades e os agricultores, o extensionista identifica um conjunto de problemas e, a partir daí, se gera a prioridade para a região, e direcionamos o trabalho para a resolução dos problemas. Então, é um ação de mão dupla, em que a participação dos agricultores é extremamente importante.
Diante das duas faces da instituição, pesquisa e extensão rural, o que o senhor apontaria como principais contribuições do IPA ao meio rural pernambucano e ao restante do país?

Gostaria de enfatizar os principais resultados na área de inovação tecnológica, como por exemplo, o melhoramento animal. Ao longo dos anos 50, o IPA começou a trabalhar com esse melhoramento e viabilizou as bacias leiteiras de Pernambuco e de Alagoas. Outra grande contribuição oferecida pelo IPA à área da inovação foi o trabalho com pastagens, a seleção e a incorporação do capim buffel, altamente resistente à seca e, hoje, cultivado na região produtora de leite, tanto de Pernambuco quanto no semiárido nordestino. Então, como fonte de alimento volumoso, o capim buffel tem tido um papel importantíssimo. Aliado ao buffel, o IPA iniciou, em 1958, o trabalho com a palma forrageira, uma cactácea altamente resistente à seca, como fonte de alimento energética, tem um papel extremamente importante. Somente temos bacia leiteira, no semiárido, porque possuímos a palma, uma espécie extremamente resistente à seca. Na área de plantas cultivadas, eu destaco o melhoramento do tomate para indústria, e da cebola em condições de altas temperaturas. O IPA tem mais de 70 variedades registradas no Ministério da Agricultura e, além das variedades de cebola que o IPA desenvolveu, ressalto a tecnologia da vernalização (técnica de redução ou ampliação do ciclo vegetativo de uma planta através do tratamento de suas sementes, bulbos ou mudas), ou seja, é uma tecnologia que permite que a cebola mesmo em condições de clima quente possa produzir flores, o frio que induz ao florescimento é obtido artificialmente colocando em câmeras frias especiais. Então, foi uma importante tecnologia que viabilizou a produção de sementes de cebola e, eu considero, um dos carros chefe do IPA, ao lado do conjunto de variedades que foram produzidas na área de controle biológico. O IPA foi o primeiro a desenvolver em laboratório a criação do fungo metarhizium anisopliae para controle biológico da cigarrinha da cana-de-açúcar. Depois o controle biológico de pragas e até de insetos transmissores de doenças, como a muriçoca e do Aedes aegypti (mosquito transmissor da dengue). Esses resultados obtidos pelo IPA no campo da inovação tecnológica trouxeram grande impacto para agricultura de Pernambuco.
Quais são os desafios do IPA para o próximo ano?

O grande desafio do IPA será discutir um conjunto de inovações tecnológicas de convivência com o semiárido. Essa é uma questão que tem que ser perseguida, pois não podemos ter secas, um fenômeno natural, com tantas perdas financeiras. Por que acontecem as perdas financeiras durante a seca? Porque nunca esperamos a seca. Eu costumo dizer que a seca é um fenômeno natural feito o inverno nas regiões temperadas, feito a noite. Veja que nós aguardamos a noite e nós nos preparamos para ela, para isso desenvolvemos inovações tecnológicas de energia elétrica, de luzes nos veículos, ou seja, um conjunto de mecanismos, porque é muito ruim viver na treva. Como não tem seca o ano todo, é comum ter agricultor que tem cem animais de produção e não tem um quilo de suporte forrageiro guardado para segurar a alimentação do rebanho durante a estiagem. Então, o governo do estado aprovou uma lei de convivência com o semiárido e nós queremos discutir isso em cada município para que a sociedade faça essa reflexão. Vamos chamar os agentes de desenvolvimento que, vez em quando, estão financiando a aquisição de animais. Isso tem que estar associado ao suporte forrageiro de forma que se saiba que, para ter um conjunto de animais, é preciso guardar um estoque de alimentos, armazenar uma quantidade de água para poder passar o período de estiagem. Evidentemente, isso envolve uma conscientização dos agricultores, dos agentes de desenvolvimento, dos agentes financeiros da sociedade. Isso considero que é o maior desafio do IPA e das instituições de pesquisa e de extensão rural, para que, nos próximos anos, possamos levar um conjunto de inovações e de medidas para que a próxima seca que, com certeza, virá, não traga o prejuízo financeiro e o sofrimento que a última trouxe.

Fonte: Ascom Asbraer|Texto:André Lage|Foto:ascom Asbraer

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